Quem sou eu na minha self?

October 9, 2017

Você já reparou que a vida está passando mais rápido do que antigamente? Lembro-me da minha juventude, quando o tempo passava lentamente. As férias, pareciam nunca chegar! Fazer 18 anos então, parecia inalcançável. O sonho de tirar carteira de motorista para sair de carro sozinho a noite parecia demorar uma eternidade. Depois dos 18 anos, os anos voaram. Chegaram as responsabilidades, as preocupações, as mídias sociais, internet e, como resultado disso tudo, não passamos mais nenhum minuto sem fazer absolutamente nada.

 

Quando foi a última vez que você fez absolutamente nada? Não vale contar o dia em que acabou a bateria do seu celular e você estava no consultório médico, sem revistas e jornais na mesinha de centro! Muito difícil lembrar, afinal andamos hoje com o celular carregado e bateria reserva para garantir o acesso extra às redes sociais.

 

Essa é a nossa vida, trabalhar, pagar contas, acessar nossas redes sociais e pronto. Pessoas, diante do pôr-do-sol perfeito, se preocupam com quantas curtidas vão ganhar pela foto ao invés de saborear a intensidade do momento. Saborear a foto de uma deliciosa sobremesa no facebook ficou mais saborosa do que o sabor do próprio prato preparado pelo chef internacional renomado. Inverteram-se os valores, as prioridades e as necessidades.

 

Tudo virou descartável, desde um celular moderno diante de um modelo mais novo, até o ser humano num restaurante, que é trocado facilmente pelo celular nas mãos do amigo ou até mesmo do familiar. Quem nunca viu várias pessoas sentadas ao redor de uma mesa, celulares nas mãos, interagindo com a tela do inanimado aparelho ao invés de interagir com as pessoas ao redor?

 

Isso demonstra um pequeno retrato da superficialidade do mundo atual. A necessidade de ser aceito e admirado cresceu absurdamente com a chegada das redes sociais. Enquanto isso, o tempo corre e estamos perdendo tempo de transformação. Estamos nos esquecendo de nos transformarmos em seres humanos melhores, com melhores relacionamentos, mais resilientes, criativos, mais amáveis, mais cultos, enfim, melhores.

 

O problema é que transformar-se demora e dói. Demora por que não se muda um comportamento da noite para o dia. Dói porque eu terei que olhar para as minhas falhas, aquelas que eu finjo que não tenho mas que todos ao meu redor sabem que eu tenho, e melhorá-las. É como eu me olhar no espelho e perceber as falhas que minha mãe sempre escondeu. Isso faz parte do processo de reconhecimento de que não somos perfeitos e do sepultamento do nosso próprio ego. E como isso dói, saber que estamos longe da perfeição que as nossas páginas no facebook apresentam e que promovem tantos likes. Que ironia, o mundo, feito por pessoas imperfeitas, clama superficialmente por super fake heróis. Fake heróis porque, dentre muitas de nossas características defeituosas e geniais, filtramos o que as pessoas verão colocando apenas as geniais.

 

O resultado disso tudo está no aumento de suicídios, aumento do turnover nas empresas, mudança comportamental entre pais e filhos, funcionários que choram quando recebem feedback negativos ou desistem de seus objetivos no primeiro obstáculo que aparece, dentre muitos que surgirão neste mundo real. Afinal, o mundo real é feito de pessoas que aprovam e desaprovam nossos comportamentos todos os dias. O mundo real é feito de continuidade e aprendizado dos nossos erros e não de “vida extras ou reiniciar o jogo quando estamos perdendo”. O mundo real é feito de frustração e de conquistas e ambas podem nos afundar ou nos impulsionar. Para isso, precisamos transformar primeiramente a nossa mente e depois os nossos comportamentos.

 

Transformar-se exige convivência, o que leva as pessoas que passam tempo de qualidade conosco identificarem nosso melhor e nosso pior lado. E mais, faz com que elas também se transformem em pessoas mais tolerantes e compreensivas, afinal convivência é isso, é mudar para ser uma pessoa melhor para o outro, para a sociedade. Afinal, ser eu mesmo, imutável, autocentrado em mim mesmo e sem desejo de transformação trará apenas a minha destruição e o afastamento das pessoas que estão ao meu lado. Tirando os semelhantes, ninguém gosta de conviver com o arrogante, com o mentiroso, com a pessoa que fala mal de todo mundo pelas costas. Essas coisas, invisíveis nas redes sociais, se tornam visíveis no relacionamento do dia a dia e afastam as pessoas importantes da nossa vida, por mais que elas permaneçam “por perto”.

 

Que possamos olhar para dentro de nós e perceber que jamais mudaremos o mundo se nós não nos transformarmos primeiro. Que este seja o momento de humanizarmos a sociedade através do reconhecimento da nossa incrível capacidade de acertar, mas também a de falhar. Que possamos compartilhar com os nossos filhos, funcionários, amigos, irmãos, família tanto aquilo que deu certo e fomos bem-sucedido, como também aquilo que deu errado e que gostaríamos de ter feito diferente. Nesse momento de humanização e reconhecimento dos erros, eles nos olharão com mais admiração e pensarão, com olhar de compreensão e alívio, “que bom que não sou somente eu quem erro!”

 

Prof. Marcelo Sattin é professor de Criatividade, Inovação e Liderança, é Mestre em Criatividade e Inovação pela UFP (Portugal), pós-graduado em Administração de RH e em Gestão de MKT de Serviços (ambas pela FAAP), Coach Sênior pelo ICI e Executive Coach pela SBCoaching, sócio-diretor MT treinamentos comportamentais e mágico profissional há 17 anos.

Neste ano de 2017, o professor Marcelo Sattin estará no CBTD com a palestra Resiliência e Criatividade: Resolvendo Problemas, Superando Desafios e Agregando Valor.

 

 

 

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